16 de outubro de 2005. Há mais de uma década, Silvia Regina de Oliveira entrava em campo para apitar Paysandu 2 x 1 Fortaleza pela Série A do Campeonato Brasileiro. Ela foi a última. Desde então, nenhuma mulher atuou como árbitra principal em uma partida das quatro divisões do torneio nacional masculino, nem sequer participou dos sorteios de arbitragem da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). Mas este tabu já tem data para ser quebrado: domingo, dia 12 de junho, às 16h, Deborah Cecília Correia (da foto em destaque) será a juíza do duelo entre Murici-AL e Campinense-PB, pela Série D.

Os 11 anos de ausência das mulheres no apito nacional têm justificativas práticas, e abstratas também. Logo depois que Silvia Regina apitou aquele jogo em 2005, as regras mudaram. Em 2006 – com validade a partir do ano seguinte –, os testes físicos da Fifa para árbitros e árbitras ficaram mais difíceis. Além disso, para atuar em competições masculinas acima da categoria sub-20 no Brasil a partir de 2007, as mulheres passaram a ter como obrigatoriedade atingir os índices que homens precisavam fazer.

Em 2012, por exemplo, Regildênia Moura – profissional desde 2004 – passou nos testes de arbitragem fazendo índice masculino. Naquele ano, atuou apenas como quarta árbitra e como árbitra adicional.
Nessa terça-feira, foi ela quem apitou a final da Copa do Brasil sub-17, entre Corinthians e Sport. Em 2015, sete mulheres foram aprovadas: seis assistentes e uma árbitra, Katiucia da Mota – foi quarta árbitra na Série C.
Neste ano, são 19 as credenciadas: 18 assistentes e uma árbitra, a Deborah, que passou no teste em março.
Profissional desde 2010, ela apitou cerca de 20 jogos em competições nacionais até hoje – entre eles, a ida da Copa do Brasil sub-17, entre Sport e Corinthians – e 10 na Série A do Campeonato Pernambucano. A pernambucana de 30 anos começou na categoria 2 e hoje é aspirante Fifa.
“Aos poucos, temos ganhado oportunidade. Mas ainda falta muito. É um marco (ser incluída no sorteio da Série D). Não tenho nem palavras. Me sinto representando mulheres de todo tipo. Policiais, bombeiras, repórteres… Fico muito feliz. Se ganhar, me sentirei muito honrada. Quero puxar o bonde para deixar as portas abertas. Quando recebemos a escala, dizemos que é um presente que não podemos estragar ou jogar fora para que as portas não se fechem”, falou Deborah, em entrevista ao espnW.
Passar nos testes físicos com índice masculino não é suficiente. Elas precisam ter chances em seu estado para poderem chegar à Série D do Brasileiro e ir subindo até chegar à A. Além disso, dependem de serem bem avaliadas. Por isso, parece difícil acreditar que veremos, tão cedo, uma mulher apitar uma partida da elite do futebol nacional.

“Infelizmente, ainda há resistência. Não temos as mesmas oportunidades. Sou árbitra profissional desde 2004. De lá para cá, não apito com a mesma frequência que os homens da minha categoria. Nunca apitei Série A 1 do Paulista e pelo meu histórico, por nunca ter tido problemas em 12 anos de federação, eu acho que merecia. Alguns árbitros homens da mesma turma que a minha têm mais chances. Como se motivar? Para que ficar me matando se não tenho as mesmas oportunidades?”, disse Regildênia Moura, única brasileira pré-selecionada para trabalhar no Campeonato Mundial Feminino de 2019, na França.
Um dos critérios para integrar o quadro de arbitragem da CBF é “ter atuado, pelo menos, em duas temporadas na divisão principal de qualquer federação estadual, sendo uma delas, obrigatoriamente, a última. Além disso, deverá ter atuado em dez jogos [no estado], sendo cinco da principal divisão e cinco das outras divisões de futebol profissional.”
“À medida que você exige mais, elas se preparam mais. Na época da Silvia Regina, não havia as exigências de índice masculino. Nossa intenção é aumentar cada vez mais o número de mulheres árbitras… incentivar as federações estaduais. Com certeza, ainda neste ano, teremos um trio feminino na Série C e na Série D. Nosso sonho é vê-las na Série B e na Série A o quanto antes”, falou Sérgio Corrêa, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF.

No México, a primeira mulher a apitar uma partida da primeira divisão foi Virginia Tovar, em 2004. Feito que ficou ofuscado quando o ex-jogador Cuauhtémoc Blanco a mandou “ir lavar pratos”. Fora da América, somente Gladys Lengwe, na Zâmbia, costuma apitar partidas importantes e se espera que Kateryna Monzul possa seguir esses passos em pouco tempo na Ucrânia.

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