No fim do mês de referência aos avanços conquistados pelas mulheres, a Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel) celebra e homenageia mais uma importante atuação feminina no esporte mato-grossense.
Trata-se de Cinira Melhorança Albertão, ou simplesmente Tia Cinira. Jogadora de basquetebol, professora e técnica, Cinira representa bem a fortaleza feminina e sua história é inspiração para que as mulheres conquistem muito mais, no esporte ou em outro qualquer espaço que quiserem.
Para o secretário da Secel, Allan Kardec, a atuação da professora Cinira merece toda homenagem possível. “Conheci a professora quando ingressei na antiga ETF e fui fazer o teste da disciplina esportiva. Eu estava na fila e ao ouvir meu nome, Cinira foi me explicar sobre ele ao mesmo tempo que me dava um grande abraço. A partir daí comecei a prestar atenção em sua atuação e ver quanto ela era uma excelente professora, atleta e mãe. É uma das melhores atletas e uma das maiores personalidades do esporte de Mato Grosso”, descreve Allan.
O relato é parte da série de homenagens a esportistas que a Secel começou a fazer no início deste mês. Confira:
Cinira Melhorança Albertão, ou simplesmente e amorosamente Tia Cinira, é responsável por, pelo menos, três gerações de basqueteiras de Cuiabá. Meninas e jovens que estudaram na Escola Técnica Federal (ETF) ou na Universidade Federal de Mato Grosso, entre 1973 e 1997, passaram pelas quadras de basquete da Tia Cinira, que além de jogadora é professora e técnica.
Com a pergunta de quando se apaixonou por esse esporte de estratégia, ritmo, dinamismo, disputas corpo a corpo e alturas, a resposta vem do coração: “desde sempre, não tenho memórias de antes do basquete entrar na minha vida”.
Na infância mesmo, por volta dos 12 anos, Cinira passou a integrar um pequeno time criado em Andradina. O talento da jovem nas quadras chegou até o técnico da Faculdade de Bauru, o Instituto Toledo de Ensino, que convocou Cinira para fazer parte do time em troca de uma bolsa de estudos para cursar a Faculdade de Educação Física.
Foi na faculdade que ela conheceu um outro apaixonado pelos esportes, Sabino Albertão Filho. A diferença dos dois é que ela amava o basquete e ele o vôlei. Por causa disso os dois acabaram se especializando nas duas áreas, basquete e vôlei, para ficarem mais tempo juntos, assistindo as mesmas aulas.
A formatura em Educação Física foi em 1972. A mudança para Cuiabá aconteceu na sequência, no início de 1973, e no mês seguinte Cinira já estava contratada pela UFMT e trabalhando na ETF. “Meu registro da ETF é de agosto, mas meu trabalho lá começou em fevereiro. Isso porque na época o Diretor, Coronel Torquato, disse que só me efetivaria depois que eu mostrasse minha competência, e para isso teria que ganhar o Campeonato Estudantil. Trabalhamos duro neste preparo, ganhamos o Campeonato e fui contratada”, lembra Cinira.
Por causa desta janela de tempo, quando surgiu a obrigatoriedade de concursos para contratação nos órgão federais a Tia Cinira não tinha o tempo suficiente de casa para eliminar a obrigatoriedade e teve que passar pelo Concurso da ETF. O desafio não foi um problema, a Tia tinha competência de sobra e a maior prova disso é que fez 98 pontos na prova que valia 100, ficando em primeiro lugar no país e sendo a professora e técnica da ETF por mérito.
O casamento com o professor Sabino veio em 12 de julho de 1973 e com ele Cinira teve três filhas: Rejane (44 anos), Rossana (42 anos) e Renata (39 anos). Junto com Sabino Cinira dividiu a vida pessoal e profissional. Foi ao seu lado que a Tia Cinira ministrou as aulas de Educação Física para todos os alunos, de todos os cursos da UFMT de 1973 a 1980.
Foi na abertura da década de 80 que a universidade inseriu o Curso de Educação Física e com isso Cinira e Sabino, que estavam no seleto grupo de professores mais experientes e preparados, saíram das aulas básicas e passaram a formar profissionais da Educação Física, sendo os professores titulares do novo curso da UFMT.
Essa dedicação à Educação Física seguiu até o ano de 1997, quando se aposentou nas duas instituições, ETF e UFMT. Por 25 anos Cinira ajudou Cuiabá a ter as melhores jogadoras de basquete do estado, seja como técnica ou professora. Em sua lista de títulos que ajudou a conquistar para ETF estão o Campeonato Mato-grossense, nos anos de 73, 74, 75 e 76, e o Campeonato Cuiabano até o ano de 1983.
Cinira despertou nas jovens a paixão pelo Basquete, desenvolvendo o espírito esportivo em que o jogo vale mais do que o título e formando professoras e técnicas que seguem até hoje com os mesmos valores. O seu trabalho ajudou a destacar jovens atletas, não só em nível estadual mas até nacional. Uma delas é a TUCA, Maria de Lourdes de Albuquerque Affi Barcaui , que chegou a ser convocada para a Seleção Brasileira de Basquete.
“Sou de uma época em que os treinadores tiravam sangue dos atletas tendo como foco os resultados, passei por isso como atleta e como treinadora, mas participei também da transição do esporte nacional, do momento em que treinadores e professores começaram a perceber que mais importante do que medalhas era o amor pelo esporte, a dedicação e o acesso dele a todos, independente de altura, peso e até habilidade. Da mesma forma que foi fundamental o momento em que percebeu-se que treinos deveriam ser prescritos de forma individual, respeitando os limites de cada um. Tudo isso faz parte da evolução do esporte e eu tive o prazer e a honra de participar de cada momento deste”, conta Tia Cinira.
Com a aposentadoria a Tia Cinira decidiu buscar novos ares e aproveitou para prestar o Concurso Público do Estado (1999/2000). Encerrado um ciclo lá estava ela com um novo desafio, agora o de ser professora da rede estadual de ensino. O novo concurso acabou levando Tia Cinira e toda família para cidade de Sinop, há 500 km ao norte da Capital, onde ela passou a dar aulas na Escola Estadual Osvaldo de Paula, que desde 2008 leva o nome de CEJA Benedito Sant’ana da Silva Freire.
Dinâmica e ousada a Tia Cinira não se contentou com um novo concurso, ela queria mais, resolveu fazer sua segunda faculdade, cursando Letras na UNEMAT e se formando novamente em 2003. A nova graduação permitiu a Tia Cinira sair de professora para Coordenadora Pedagógica e se manter ainda mais atuante na educação, onde está até hoje com 51 anos de vida dedicados a educação.
Dizem que a idade está na nossa mente e alma e é ela que determina como seguimos pela vida. Levando isso em consideração, a Tia Cinira permanece a mesma, com algumas limitações físicas, frutos de treinos severos dos velhos e bons tempos de basqueteira, mas com a mesma paixão e entusiasmo da juventude, aguardando qual será o próximo desafio, qual oportunidade que a vida lhe dará e sempre aproveitando quando uma bola lhe cai nas mãos e uma cesta surge em seu horizonte, afinal, uma vez basqueteira, sempre basqueteira.

